MADALENA
Elói Inácio Carmezini
Madalena era meio tola.
Era como chamavam, na década de 20, as pessoas que
nasciam com alguma deficiência mental.
Era meio boba, mas forte e muito trabalhadora.
Cresceu assim, de manhã à noite, no cabo da enxada,
junto com o pai, asmático e a mãe sempre doente e frequentemente acamada.
Seus irmãos menores a maltratavam, mas ela reagia
com um porrete e punha os moleques a correr. Quando conseguia pegar um deles
pelos cabelos - coitados deles - arrancava chumaços enormes e batia neles sem
piedade.
Seu pai, fraco e doente, pouco se importava com a
situação. Frequentemente, seu irmão Valentim, que morava perto, tinha que
interferir para controlar a situação. Mas Valentim não estava sempre presente,
pois tinha seus afazeres que o impediam de dar uma assistência mais próxima ao
irmão, à cunhada e a seus filhos.
Maria, a menor, era uma menina meiga. Sofria muito
com a doença da mãe a quem fazia companhia e a tendia nos mínimos desejos.
Mas a carga era demasiada para seus poucos anos.
Precisava arrastar o balde cheio de água, do riozinho que corria a uns duzentos
metros, até a cozinha de chão batido. Ajudava Madalena, como podia, a fazer a
comida, varrendo a cozinha com uma vassoura feita de ramos de um arbusto,adequadamente chamado de vassoura. Varria, também o terreiro e enxotava as galinhas que
teimavam em pular para dentro do cercado e entrar na cozinha.
Cuidava de levar água para a mãe na cama e atendia
prontamente aos pedidos da enferma. Uma boa menina e Henriqueta tinha muito carinho
por ela e preocupava-se com o futuro da filha, ciente de que seus dias estavam
findando.
Uma manhã de inverno, Henriqueta amanheceu morta.
Quem descobriu que ela estava morta foi seu marido
Jorge. Estava branca e muito fria: morta.
- Descansou. - pensou ele.
Mandou Madalena correr até a casa do tio Valentim
para avisar.
Ela saiu correndo, batendo os largos pés descalços
na trilha afundada por tantas passadas. Ia atenta,
olhos fixos onde poria os pés para evitar pisar em algum jararaca. Jararacas, as havia por todo lugar. Era uma praga. Quanto mais
jararaca se matava, mais jararacas apareciam. Jararacuçus também eram
abundantes. Madalena entendia muito bem esse perigo e se cuidava. Cobras
caninanas e cobras cipó não eram perigosas. Diziam até que não eram venenosas.
Não importa, ela as matava todas. Andava sempre com um
fueiro de carro de bois: para matar cobras e espantar cachorro brabo.
Jorge sentiu que uma lágrima lhe veio aos olhos ao
tentar erguer o corpo sem vida da esposa. Enxugou-a como quem dá um tapa numa mosca incômoda.
Estendeu-a sobre a cama e foi buscar um balde de
água e uma gamela para lavá-la.
Maria ainda dormia. Os três meninos já tinham ido
tratar dos porcos. Sequer haviam se lembrado de dar uma olhadinha na mãe
enferma. Dar de comer aos porcos era a tarefa diária deles e ninguém precisava
dizer-lhes o que fazer. E se alguém tivesse que dizer-lhes o que fazer,
fá-lo-ia com varadas, quando não com chicotadas. Era assim que se educava, na
época.
Jorge chegou com a água, pegou uma gamela de madeira
em um canto da cozinha, juntou um pedaço de sabão que secava sobre uma
prateleira e foi para o quarto cuidar de lavar o corpo sem vida. Fez uma enorme
lambança sobre a cama e finalmente vestiu-lhe o melhor traje domingueiro que
ela possuía. Aliás, o único.
Saiu para a rua e foi até o paiol onde juntou três
casqueiros de canela preta que arrastou para dentro de casa. Pegou dois bancos
de madeira que estavam junto à mesa, e os dispôs um em frente ao outro e fixou os três casqueiros sobre eles, formando uma pequena
plataforma. Voltou ao quarto, reuniu todas as suas forças e arrastou o corpo
sem vida até a essa improvisada e deitou-o. Pegou um lençol cheio de manchas e
o colocou sobre o corpo da esposa.
Acendeu uma vela de cera, a mesma que era acesa quando
roncava trovoada e pegou, na parede do quarto, um crucifixo de ferro e o
depositou ao lado da vela na cabeceira da essa.
Ajoelhou e rezou: "Requiem aeternam dona ei, Domine, et lux
perpetua luceat ei. Requiescat in pace. Amen". Da maneira que sabia, segundo
o costume friulano de rezar em latim.
Foi então que Maria acordou e viu a mãe na essa.
- Cosa è
sucesso? Perguntou ao pai.
- Tu mári è
muârt (tua mãe morreu).
Maria pôs-se a chorar alto.
- Cit' ò! – Cala a boca! - Volveu seu pai.
Esta é a única lembrança da mãe que ficou gravada no
subconsciente de Maria pelo resto da vida.
Os meninos chegaram e foram para perto da essa. Já
eram maiores e entendiam a situação. Bepino deixou
correr uma lágrima pelo canto do olho. Estava conformado e, de certa forma, confortado.
Fazia muito tempo que a mãe estava no fundo da cama, sempre gemendo. Ele já não
aguentava mais aquele sofrimento. Foi bom que Deus a tivesse levado.
A notícia da morte correu e começaram a chegar os
vizinhos. Primeiro o Valentim, a mulher e todos os filhos. Uma hora depois
chegaram alguns polacos que moravam mais abaixo.
O enterro foi à tardinha,
Jorge e os filhos voltaram para casa, cabisbaixos.
Madalena não sabia o que estava acontecendo.
No dia seguinte, voltaram ao trabalho pesado na
roça. A única diferença é que agora todos estavam vestidos de roupa preta.
Maria se achava especial dentro daquele vestidinho
preto que a tia Ana lhe trouxera.
Jorge, sentia-se ridículo
com aquela camisa preta contrastando com o bigode espesso, totalmente branco.
A vida agora ficara mais leve com falta da mãe.
Os anos se sucediam. As crianças cresciam
briguentas, violentas, blasfemas.
E Jorge, um belo dia, enxada às
costa, estava a caminho da roça, os cachorros roçando-lhe as pernas. Caiu. Os
cachorros começaram a lambê-lo. Estava morto, mas Alfredo que estava com ele
achou que ele só estivesse desmaiado. Correu para a beira do riozinho que
corria ao lado da trilha, arrebentou um talo de inhame bravo, fez uma concha
com a folha e levou água para o pai. Mas não conseguiu fazê-lo beber. Estava
todo mole e exalando um terrível cheiro de fezes. O rosto completamente branco.
Alfredo chamou-o pelo nome, sacudiu-o e nada. Então deu meia-volta e foi
correndo até a casa do tio Valentim pedir ajuda.
Valentim e seu filho Hercílio vieram correndo.
Examinaram o corpo.
Valentim exclamou, voz
embargada:
- Oh! Diu Bono, c´è muârt. Ercilio,
vá tchol ínte per aiút. (Oh! Bom Deus, ele esta morto. Hercílio, vai buscar
gente para ajudar).
Hercílio saiu a passos rápidos para chamar gente. O
vizinho mais próximo ficava a mais de um quilômetro.
Foi um dia muito triste. Os cinco filhos de Jorge
nada diziam. Também não choravam. Nem sabiam que era
para chorar. Nem a Maria, geralmente tão sensível, chorava. Ainda estava
magoada com a sova de chicote que apanhara do pai, por quebrar um prato
acidentalmente.
Só a tia Ana chorava. Chorava de mansinho.
Os cinco voltaram para casa, perto da noite. Seu pai
ficara lá no cemitério, em cima do morro. A cova era funda e sobre ela ficou um
montinho de terra onde fincaram um cruz.
Ninguém sentiu vontade de comer naquela noite. A
ceia ficou toda sobre a mesa e os gatos se banquetearam.
Sequer lembraram de tratar
as criações.
Foram dormir o sono da incerteza.
Madalena, já beirando os 18 anos, logo dormiu. Mário,
também dormiu. Os outros ficaram acordados com saudade da mãe que partira muito
tempo antes. Sentiam falta dela. Do pai não. Dela, sempre dela que partira
quando eram tão pequenos.
A tia Ana no dia seguinte foi vê-los. Ajudou-os a
por a casa em ordem e determinou a cada um as suas tarefas: tratar das
criações, capinar as roças de milho, feijão e batata doce.
Recomendou-lhes a ida à missa todo domingo e a não
trabalhar nesse dia. Era uma boa recomendação. Eles gostavam de ir à freguesia.
Depois da missa ficavam olhando os outros rapazes jogar futebol ou davam uma
espiada na cancha de "bocha".
As moças olhavam para ver se os rapazes as notavam.
Um rapaz alto, de origem polonesa, se acercou de
Madalena.
- Bom dia – disse ele
- Bom dia – respondeu
- A festa está em animada, n´é?
Madalena não respondeu. Não encontrou resposta.
Cabeça meio abaixada, olhava para cima timidamente.
- Meu nome é Gervásio e eu
moro na Nova Galícia. Vim de carroça pra assistir à missa.
- Eu moro aí em cima, na estrada que vai para Nova
Trento. Dá dois quilômetros daqui. – informou Madalena.
Olhou para os lados à procura dos irmãos. Estavam
entretidos ao lado da cancha de bochas. Maria, a irmã menor estava ocupada em
juntar tampinhas de garrafa espalhadas pelo chão, misturadas a pontas de
cigarro de palha e de papel. Todos os homens fumavam. Gervásio
trazia fixado por sobre a orelha esquerda um grosso cigarro de fumo de corda, enrolado
com palha de milho.
Madalena olhou-o e sorriu timidamente. Espiou
rapidamente a posição do sol.
- Já é quase meio-dia, hora de ir para casa.
- Posso ir junto com você?
- Não sei, vou ver o que diz meu irmão Alfredo.
Foi até onde estavam os três irmãos e perguntou ao
mais velho se o rapaz podia ir junto com ela um trecho do caminho.
- Pode, mas só até na entrada da casa do tio
Valentim. Depois, não... E a Maria vai contigo. Viu,
Maria? Cuida bem da Madalena. Não deixa ela ficar
sozinha com o rapaz aí.
Maria fez que sim com a cabeça. Mário olhou para
Madalena com ódio estampado na face. Bepino ficou
atento ao jogo de bochas, indiferente à conversa dos irmãos.
Madalena tirou os sapatos, segurou-os pelas tiras e
enfiou seus pés rudes na poeira da estrada. Maria a seguiu, batendo os pés
descalços ao correr para chegar perto de Madalena. Gervásio
acompanhou-a, pondo-se a seu lado, uma distância prudente dela, pois os irmãos
dela estavam com os olhos fixos nos dois.
Gervásio tirou o palheiro de traz da
orelha e o acendeu com o isqueiro cheirando a gasolina. Logo depois da primeira
curva da estrada aproximou-se mais de Madalena e como quem nada quer, sua mão direita
roçou a mão esquerda dela.
Madalena afastou a mão como se fora picada por uma cobra.
Mas sentiu um quenturão subir-lhe por entre as
pernas, rodear seus seios e chegar fervendo ao rosto que se tornou vermelho
como um pimentão.
Reagiu violenta:
- Vai embora. Eu não quero mais você. Vai embora!
Empurrou-o contra o barranco da estrada.
Gervásio, que notara sua deficiência
mental, deixou cair o palheiro, quis balbuciar uma desculpa, mas resolveu que
era melhor voltar.
Os deficientes mentais, naquela época causavam medo.
Muitos os temiam e os evitavam. O preconceito era enorme e Gervásio
não fugia à regra. Voltou.
Maria, pequena e inexperiente, nada viu, nada notou e apressou os passinhos quando Madalena a
segurou pela mão e a fez caminhar rapidamente, quase a arrastar.
Essa foi toda a experiência sexual de Madalena, em
toda a sua vida.
Cada vez mais ela tinha medo das pessoas. Tinha medo
de falar com qualquer um, mesmo que fosse conhecido.
Seus irmãos a tratavam mal. Gritavam com ela.
Faziam-na trabalhar como um burro de carga.
Arrancava inhame no banhado, arrastava as raízes
enormes até em casa, picava-as com um facão e as dava aos porcos. Dava abobora
picada aos porcos e às vacas. Às vezes enchia um tacho com inhame e cozinhava.
Era bom para engordar os porcos. Quando tinha fome, pegava um pedaço de inhame
no tacho e comia com satisfação. Era gostoso.
Também ralava as raízes, misturava-as com cará e
fazia quatro ou cinco pães de milho que assava no enorme forno feito tijolos e
localizado atrás da casa, perto do paiol do milho.
Seus irmãos adoravam aquele pão. Passavam banha de
porco sobre ele e comiam-no satisfeitos, acompanhado de café preto, adoçado com
açúcar grosso. Abóbora cozida com água e sal era um prato frequente na mesa
deles.
O tempo foi passando, Maria, a menina meiga, cresceu e começou a
sair de casa sozinha a andar pelos pastos do tio Valentim. Voltava para casa
tarde. Já noite escura.
Madalena não sabia o que acontecia. Seus irmãos não
notavam, mas Maria andava se encontrando na capoeira com a rapaziada da
vizinhança. Tanto andava que o seu tio Valentim estava de olho nela e diversas
vezes a mandou para casa, para junto dos irmãos.
O tempo foi passando. Madalena, deficiente mental,
notoriamente tola, como tal era tratada por todos. Mas era uma tremenda
trabalhadora.
Dava conta da casa, do quintal, das criações, das
roupas dos rapazes e das roupas de cama. Tudo limpinho, menos o vestido dela
que mais parecia um saco encardido. Ela não ligava para isso. Aos sábados,
enchia uma grande gamela de madeira, esquentava uma panela de ferro cheia de
água e tomava um banho. Vestia então uma roupa limpa que usaria durante a
semana seguinte. Domingo pela manhã vestia o único vestido de ir à missa que
possuía, juntava entre os dedos os sapatos que seu pai lhe dera antes de
falecer e ia à missa. Na igreja rezava devotamente, mas não sabia porque rezava. Sabia de cor todas as orações, embora sua
pronúncia fosse bastante deficiente. Às vezes, na igreja, rezavam em polaco e
aí Madalena se atrapalhava toda.
Depois da missa, corria para casa para fazer o
almoço. Matava uma galinha gorda, depenava-a e fazia um belo ensopado e uma
enorme polenta.
Quando seus irmãos chegavam, passado do meio-dia, a
janta (era como chamavam na época o almoço) estava pronta: polenta, galinha
ensopada, "radici" e chicória com bastante
vinagre de vinho.
Mário e Bepino brigavam
muito. Mário era mais forte e batia no irmão mais novo com o que tivesse à mãos. Corria atrás dele com um pedaço de pau ou até com um
facão.
Alfredo olhava preocupado para os irmãos.
Um dia falou no assunto com seu primo Hercílio e
ambos passaram a observar o comportamento de Mário.
Este falava sozinho, às vezes se sentava sobre um
cepo e ficava horas e horas resmungando e dirigindo
olhares cheios de ódio para o irmão mais novo.
Também em Madalena e Maria ele batia.
O comportamento do Mário não parecia normal. Tinha
dia que ele parecia estar louco. Mas não deu maior importância ao problema.
Tinha sido convidado para ir trabalhar em Santana, numa fazenda e resolveu que
iria para lá, cuidar da vida. Foi.
Em casa ficaram os demais irmãos, entregues à
própria sorte.
A situação entre os irmãos foi ficando pior.
O tio Valentim começou a notar a anormalidade do
comportamento do Mário e resolveu falar com o padre depois da missa.
O padre disse que já lhe tinham informado sobre o comportamento de
Mário e que já sabia que ele não era violento só com os irmãos. Já havia batido
com uma vara de marmeleiro no Stanislau Zawonsky. Já havia corrido atrás das crianças da escola e
peidado alto dentro da igreja. Era melhor dar um jeito nele. Quem sabe levá-lo
para a Colônia Santana, em São José, onde eram depositados os loucos.
Valentim ficou chocado e não quis aceitar de
imediato o diagnóstico do padre, mas passou a observar melhor o comportamento
do rapaz.
Uma semana depois Maria chegou correndo na casa do
tio Valentim pedindo para ele ir correndo apartar uma briga do Bepino com o Mário.
Lá chegando, encontrou Bepino
todo ensanguentado, roupa rasgada, caído perto da escada da cozinha. Madalena
passava-lhe um pano embebido em vinagre sobre o enorme corte na cabeça.
- Mário bateu nele com a chaleira de ferro. Quase
matou ele.
- E onde ele foi?
- Fugiu pro mato.
- Pegou o facão e foi pro mato,
dizendo que ia matar um.
Valentim voltou para casa e chamou
os dois filhos que moravam próximo.
-Temos que fazer alguma coisa com o Mário. Ele vai
acabar matando o Bepino. O Padre diz que ele está
louco. Temos que arranjar um jeito de levar ele para Colônia Santana. Não tem
outro jeito. Mas é preciso ir lá e isso vai levar tempo. Temos que dar um jeito
nele, já. Acho melhor construirmos um quarto para ele, com uma privada, ali na
vargem e prender ele lá até que se possa levá-lo para a Colônia Santana.
Fizeram o quarto, de madeira de canela, sem janelas,
apenas com um buraco por onde passagem comida e outro por onde faria suas
necessidades fisiológicas.
Um menino de seis anos, filho do Hercílio foi
encarregado de levar a comida para o preso, duas vezes por dia.
Recomendaram-lhe que cuidasse para que Mário não lhe agarrasse a mão.
O menino, cheio de medo, duas vezes ao dia, levava
comida e água.
Ao entregar a comida, fixava os olhos nas mãos do
louco. Mãos brancas. Bem feitas, de dedos compridos e unhas enormes e sujas.
Um dia pensou em arranjar um meio de não ir mais
levar comida. Tinha muito medo de ser agarrado pelo louco.
Chegou em casa e disse para
a sua mãe que o Mário havia lhe agarrado as mãos e o puxara de encontro ao
buraco de passar a comida.
Sua mãe ficou muito assustada. Nem notou que o
pequeno não tinha marca alguma de violência. Ele estava com as mangas da camisa
abaixadas.
Mário era louco e a mãe do menino não permitiu mais
que o seu filho fosse levar comida para o pobre preso. Daí em diante a Nonna, esposa de Valentim é que passou a levar a comida
para ele. Às vezes ela chegava atrasada da roça e demorava a fazer o almoço e o
pobre louco ficava sem comer até às três horas da tarde. Nessas ocasiões
soltava tremendos urros e blasfemava violentamente.
À noite os urros eram mais intensos. Ninguém
conseguia dormir. Ele chutava as paredes, tirava a roupa e a jogava pelo buraco
de passar comida ou a enfiava no buraco da privada e emporcalhava tudo.
A pobre da Madalena tinha que ir lá, pegar a roupa
imunda e lavá-la. Enquanto isso Mário ficava nu. Ela não olhava para seu corpo.
Fora-lhe ensinado que não se olha para o corpo de homem nu. Nem para o corpo de
mulher nua. Uma vez ela sentira um calorão subir por entre as pernas quando viu
o corpo nu de Jesus, somente com as partes cobertas com um pano. Saiu da igreja
correndo e achando que estava condenada ao fogo do inferno.
Um belo dia, embarcaram
Mário numa carroça e o levaram amarrado para a Colônia Santana. Madalena nunca
mais o viu.
O menino que tinha medo dele, também nunca mais o
viu, mas jamais esqueceu a crueldade que se praticava naquela época com os
doentes mentais.
Maria começou a trabalhar nas casas das pessoas de
melhores posses e depois foi embora para São João Batista, trabalhar de
empregada doméstica.
Madalena ficou só com o Bepino.
Mas começaram a brigar entre eles.
Um dia a madre Apolônia perguntou para a Madalena,
depois da missa, se ela não queria ir trabalhar com as freiras. Fazer os
serviços domésticos, lavar roupa, cuidar das vacas, tirar leite. Como pagamento
teria cama para dormir, roupa para vestir e comida.
Madalena aceitou. Bepino,
também. A sua comida ele a faria sozinho.
A princípio Madalena achou leve o trabalho junto no
convento das irmãs, mas logo a carga de trabalho começou a ser aumentada e foi
crescendo sempre mais a ponto de não lhe ser possível durante o dia sentar-se
por mais de meia hora, ao meio-dia.
Levantava às quatro da manhã e ia tirar leite de
cinco vacas. Depositava trato nas cocheiras e amarrava as vacas firmemente. Em
seguida, sentada num banquinho e tirava o leite de uma por uma e ia despejando
num balde de zinco. Enchia-o até a borda. Então, soltava os bezerros para mamarem.
Levava o leite para a cozinha, fazia o fogo e o
despejava numa grande panela para ferver.
Enquanto o leite fervia, ia ao fundo do pátio onde havia
um monte de lenha e com um pesado machado e se punha a rachá-la.
Voltava para a cozinha sobraçando um enorme feixe de
lenha, parte do qual enfiava no fogão.
Leite fervido, coava o
café.
Às seis horas as freiras levantavam e iam para a
capela rezar.
Madalena preparava a mesa no refeitório.
Às sete as freiras vinham tomar o café da manhã: pão
com nata, banha, às vezes torresmo moído e café com leite. Elas comiam pão de
trigo. Muito branco.
Madalena sonhava comer um pedacinho que fosse
daquele pão tão branquinho. Mas estava proibida. Ela só podia comer pão de
milho, feito com inhame e cará. Às vezes assava batata doce, então podia comer
uma grande batata assada com café preto. As freiras comiam batata doce com
leite. Parecia ser muito gostoso. Um dia haveria de comer batata doce com
leite, sonhava.
Depois da refeição, lavava as louças, enxugava-as e
guardava num grande armário com portas de vidro.
Aí, já quase nove horas, podia comer. Estava louca
de fome e o pão de milho com banha de porco e uma grande xícara de café era
saborosíssimo. Comia três grossas fatias e sentia as forças se refazerem.
A próxima tarefa era tratar das criações: milho para
as galinhas, batata doce e inhame para os porcos e capim e abóbora para as
vacas. O capim fora cortado por ela na beira da lagoa na véspera e empilhado
num canto da estrebaria.
As freiras ensinaram-lhe algumas normas de higiene e
ela se esmerava em lavar bem as mãos antes de fazer a comida e antes de ir para
a mesa. Ensinaram-na, inclusive a tomar dois ou três banhos por semana, o que
ela fazia numa grande gamela de madeira, abrigada dos olhares alheios por um
tabique.
Fazia ainda o almoço, o café da tarde e a janta para
as freiras. Depois podia ir até a capela e fazer as orações da noite e jantar.
Quando deitava, estava mais morta que viva. Mas ela se sentia mais feliz aí do
que em casa onde os maus tratos eram constantes. Ali, ao menos algumas freiras
sorriam para ela e a tratavam com gentileza. A irmã Basília
era particularmente carinhosa com ela. Chamava-a de Dona Madalena o que a fazia
sentir-se muito importante e feliz. A irmã Basília,
também, às vezes lhe trazia um pedaço de linguiça que surripiara do refeitório,
iguaria à qual Madalena jamais tinha acesso. Ela se criara comendo linguiça e
sentia muita falta dela e da polenta, também. Mas quando havia polenta, ela
tinha que comê-la só com chicória, porque nunca lhe davam carne. Aos domingos
podia vestir seu vestido de ir à missa e ir para a igreja. As freiras, depois
da missa, a ajudavam a fazer o almoço. Ela então não precisava cozinhar. Tinha
que se dedicar a descascar batatas, picar chuchu, lavar as folhas para a salada
de chicória e alface ou agrião e picar cebola. O domingo era um pouco mais
leve, embora ela não ficasse livre de tratar os porcos e vacas e tirar o leite.
Só não picava lenha. Às vezes as freiras chamavam um agricultor para cortar a
lenha.
Um dia Madalena acordou durante a noite com uma
tremenda dor de dentes. Tinha os dentes quase todos podres pela falta de
cuidados e ausência total de escova, coisa muito comum naquela época.
Madre Apolônia examinou-lhe
a boca e reclamou do seu mau hálito.
- Tem que limpar a boca, mulher, pega um pedaço de
palha de milho e esfrega esses dentes. Estão todos podres.
Abriu-lhe a boca, perguntando:
- Qual do dente que está doendo.
- Esse aqui, ó, apontou para um canino todo careado.
-Tem que arrancar. Abre bem a boca.
Pegou um boticão, agarrou o dente com firmeza, torceu para um lado, torceu para o outro e o dente saiu na
ponta do boticão.
A dor foi tão grande que Madalena achou que lhe
tinham arrancado um olho. Lágrimas corriam-lhe pelo rosto e o sangue escorria
pelo canto da boa. Cuspiu uma bola de sangue, na rua.
- Bochecha um pouco de chá de malva que alivia a dor.
Depois, toma um Melhoral, Estendeu-lhe um comprimido
de ácido acetilsalicílico. Logo a dor aliviou.
Foram dois dias horríveis depois da extração do
dente. O rosto ficou todo inchado. Madalena amarrou um lenço por sob o queixo e
deu um nó no alto da cabeça. Parecida que aliviava. Mas mesmo assim, teve que
fazer todas as suas tarefas. Não ganhou outro comprimido.
Fazia pouco tempo que a Segunda Guerra Mundial havia
acabado e faltava de tudo. Querosene para as lamparinas era difícil de ser obtido, por isso Madalena tinha que ir dormir no escuro,
tateando para achar a cama. Somente de manhã cedo podia acender o pequeno
lampião e ir ordenhar as vacas e executar os outros afazeres diários.
Ficou trabalhando naquele convento em Pinheiral até
meados de 1953. As freiras então decidiram levá-la para Nova Trento para
trabalhar convento delas em Vigulana.
Madalena foi. Sem se despedir. Ninguém mantinha
qualquer vínculo com ela e a irmã Basília já tinha
ido embora. Não sentiu um segundo de saudade. De ninguém. Ela era completamente
só, vivendo no meio de pessoas que sabiam que ela era tola e se aproveitavam
disso.
Em Vigulana, o trabalho
era mais árduo. Era só cuidar das vacas. Nem tirava leite. Havia uns três empregados
para tirar o leite. Ela tinha que juntar a sujeira das estrebarias, cortar
capim, dar milho e capim para as vacas. Capinar a lavoura de milho e de batata
doce e abóboras. Plantar batata inglesa, feijão e chuchu. Tinha que colher e
levar até a cozinha do convento, onde não podia entrar porque era muito suja.
Madalena foi envelhecendo, engordando, resmungando
frases desconexas e sentindo uma dor forte pelo peito afora e pelas pernas e
pelos braços.
A barriga lhe doía terrivelmente. Reclamou das dores
para as freiras que disseram que iam lhe comprar um remédio na farmácia do
hospital em Nova Trento e trazer para ela. Mas não trouxeram. Deram-lhe chá de
amargosa. Tirava a dor temporariamente, mas depois voltava mais forte. Seus
dentes já haviam caído todos. Ao menos, não sentia mais dor de dente.
Ela não sabia o que era dinheiro. Jamais em sua vida
pegara nas mãos uma única cédula de dinheiro. Por isso não sentia falta.
As freiras sabiam disso e faziam de tudo para que
ela não fosse contaminada pela ganância do dinheiro. Embora sabendo-a
pobre de intelecto, bombardeavam-na com doutrinamento demonizando o dinheiro.
- Porque o dinheiro é coisa de Satanás e leva as
almas para o inferno. Perdidas para sempre.
Madalena tremia diante do fogaréu do inferno, onde
iam parar aqueles que tinham dinheiro, aqueles que não trabalhavam para a
irmandade.
Era o dia 31 de março de 1964, um dia fatídico,
feito para se morrer. Madalena foi dormir tarde da noite com um pouco de dor do
lado. Pegou no sono logo. Ainda está dormindo.
Foi sepultada às 5 da tarde, num canto do cemitério,
perto do muro dos fundos. Sobre o montículo de terra cravaram um pequena cruz feita com dois sarrafos pregados com dois
pregos que atravessaram a madeira e por isso foram entortados do outro lado.
Nenhuma inscrição.
Passaram-se os anos. Madalena fora esquecida.
Mas aquele menino que tinha medo de levar comida
para o louco, lembrava-se dela e foi à procura do seu
túmulo.
Perguntou no convento, falou com a Madre Superiora,
deu presentes para ela, mas não foi encontrado o mínimo registro da passagem
dela.
Antes de ir embora, deu uma passada no cemitério. Viu diversas tumbas, todas com nomes de famílias italianas.
Lá um ou outro com sobrenome brasileiro ou português.
Uma senhora já avançada em anos capinava no
cemitério próximo a um túmulo.
O menino, agora feito homem se aproximou.
- A Senhora trabalha aqui?
- Sim, eu trabalho aqui no convento e sou
encarregada de manter o cemitério limpo.
-Ah, bem – falou o ex-menimo
- E faz muito tempo que trabalha aqui?
- Sim, sim. Uns 20 anos, mais ou menos. E sempre
neste cemitério. Já vi muita pessoa ser enterrada aqui. Muita freira e muita
gente que trabalhava com as freiras.
- Por acaso a Senhora se lembra da Madalena, que era
meio tola?
- Ah, se lembro. Ela era muito trabalhadeira e ria
muito e falava pouco, mas as freiras judiavam muito dela porque ela não sabia
reclamar de nada. A coitada, era muito tansa. Nem
sabia falar direito. Mas era uma mula para trabalhar.
- Morreu faz uns cinco ou seis anos e está enterrada
aí perto do muro do fundo.
- A senhora pode me mostrar?
- Sim, claro.
Levou o ex-menino até os
fundos do cemitério e lhe mostrou um pequeno cercado de tijolos, dispostos
irregularmente e uma cruz de madeira apodrecida.
- É aqui que a Madalena está enterrada.
- Tem certeza? Não tem inscrição alguma.
- Tenho certeza, sim. A coitada nem mereceu que
escrevessem o nome dela na cruz. Ela só trabalhava... Era tola, sabe. Ninguém
se incomodava com ela.
O ex-menino agradeceu à
mulher, marcou bem na memória o local onde Madalena estava sepultada e foi
embora, remoendo sua raiva e indignação.
Madalena trabalhara por mais de vinte anos com essas
freiras e elas não tiveram a dignidade sequer de fazer-lhe um pequeno túmulo.
Nada! Só o esquecimento.
Mas o ex-menino medroso
resolveu que armaria uma boa para cima dessas freiras do diabo.
Passaram-se alguns anos e o ex-menino
voltou ao convento à procura de Madalena Enriquet,
que trabalhou durante anos naquele convento, depois de ter trabalhado em
Pinheiral.
A madre superiora vasculhou os documentos do
convento e nada achou.
- Aqui não há qualquer registro que indique que
Madalena Enriquet tenha trabalhado aqui.
- E uma pena, porque ela herdou uma grande fortuna
na Itália, de onde seu pai veio em 1889, quando ainda era criança e onde seu
avô deixou uma grande área de terra na cidade de Palma Nova e que agora se
encontra bem no centro da cidade. Os interessados na compra ofereceram uma
fortuna pelo terreno. Os irmãos da Madalena já concordaram com a venda, mas a
Madalena, que dizem que vivia aqui, não tinha herdeiros. Mas para dar destino à
fortuna dela, se faz necessária a prova de seu sepultamento. Pensei que iria
ficar sabendo aqui, mas infelizmente teremos que ver o que vai decidir o juiz
italiano que está conduzindo o pagamento desta herança. A família dela que
nunca viu tanto dinheiro, está até pensando em dar um pouco do dinheiro que
receberam para a igreja, em agradecimento pela graça que Deus lhes concedeu,
dando-lhes tão fabulosa e milionária herança.
O ex-menino falava até
pelos cotovelos e a superiora do convento arregalava cada vez mais os olhos,
toda cheia de sorrisos e desvelos. O jeito, vai ser
distribuir a sua parte entre os irmãos que ainda vivem.
- Mas fazer o que, né, madre. Até outro dia, se Deus
quiser.
O ex-menino apertou a mão
flácida da madre e embarcou no carro e foi embora.
Passaram-se seis meses.
O ex-menino retornou a Vigulana e foi ao cemitério. No fundo, próximo ao muro,
havia um túmulo recente, com tampa de granito vermelho sobre a qual foram
fixadas letras douradas com os dizeres:
"AQUI DESCANSA EM PAZ
MADALENA ENRIQUET
☼23.10.1923 ┼31.3.1964
Saudades
eternas das
Irmãzinhas da
Virgem
Maria."
O ex-menino sorriu satisfeito, mas, ao mesmo tempo revoltado:
- Madalena foi escrava dessa gente.
- Trabalhou e morreu sem ter qualquer respeito por
sua condição especial. Jamais lhe foi pago um centavo pelo árduo trabalho e
sempre foi alimentada com as sobras da que devia ser a mesa do Senhor.
- A ganância finalmente as conduziu a lembrar da
pobre escrava. Fez com que ela tivesse um túmulo e pudesse ser lembrada.
A memória dela estava preservada e o ex-menino saboreava a fria vingança.
- Essas irmãzinhas que esperem sentadas pela doação
da pretensa herança de Madalena, resmungou sarcástico.
Satisfeito, embarcou no carro e foi até uma cantina
comprar um encorpado vinho tinto que tão bem se faz em Nova Trento.
Biguaçu (SC),
08.02.2011.